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O potencial criativo das cidades

Identidade urbana como fonte de soluções e inovações para a continuidade das cidades.

O contexto atual é marcado por um nível de urbanização sem precedentes e que vem acompanhado pelo aumento dos desafios urbanos em diversos áreas. As cidades desempenham um papel central no enfrentamento de algumas das maiores adversidades da nossa época; incluindo, mais recentemente, the pandemia de coronavírus. Em resposta aos desafios e à necessidade de mudanças, as cidades podem contar com a criatividade urbana. Essa capacidade é representada pelos conhecimentos e ideias inovadoras que circulam na cidade em diferentes níveis: dos indivíduos e comunidades às instituições[1].

O urbanista Charles Landry passou boa parte de sua vida investigando como explorar esse potencial criativo das cidades para resolver problemas urbanos e, quando necessário, revitalizá-las. O mesmo sintetizou o aprendizado em um conceito ou tipologia denominada cidade criativa. Cidades criativas são ambientes caracterizados pelo equilíbrio entre o passado e presente, entre o tradicional e o inovador, ao mesmo tempo em que promovem condições para que seus cidadãos pensem, planejem e ajam de forma criativa para encontrar soluções e oportunidades de desenvolvimento da cidade.

Daí se apreende que a inovação é uma ferramenta importante para ajudar a resolver problemas urbanos que já não podem ser enfrentados com soluções tradicionais, assim como, para explorar novas possibilidades com o objetivo de melhorar as cidades e a vida de seus cidadãos. Entretanto, a inovação deve estar em equilíbrio com o legado e a memória da cidade. Transformações radicais, disruptivas, são interessantes no mercado, mas as cidades são espaços de uma natureza totalmente diversa. Mudanças que não consideram esse equilíbrio entre tradição e inovação podem abalar ou destruir o senso de pertencimento dos cidadãos ao impedir que estes continuem reconhecendo os valores e características da sua comunidade no espaço urbano.

Em Bolonha, cidade criativa dentre as mais antigas da Itália, uma forte ligação com a música flui para diferentes aspectos da cidade, como: economy, educação, arte e turismo; aumentando a vitalidade nas ruas e enriquecendo a cena cultural. A cidade foi eleita Capital Europeia da Cultura em 2000 e é Cidade Criativa da UNESCO desde 2006, reconhecida mundialmente pela presença de museus e galerias de arte, a universidade mais antiga do continente e abrigar diversos eventos nacionais e internacionais ligados à música.

Sua relação com a música existe pelo menos desde o século XIII, quando sob a administração papal ela passou a ter importantes igrejas no contexto italiano e investimento em educação musical para seus corais. Com o passar do tempo a música saiu do contexto religioso e passou a ser trabalhada em liceus, institutos e outros espaços de formação que atraíram músicos do mundo todo, incluindo Mozart. Foi também em Bolonha que grandes músicos como Giuseppe Verdi se originaram e alcançaram fama mundial.

Ao longo dos séculos essa relação com a música não deixou de existir e foi apenas se adaptando criativamente aos novos tempos. Não mais especializada em música clássica, nas últimas décadas foi abrindo espaço para o jazz, o folk e o indie. O investimento nessa identidade musical se refletiu na atração turística, na economia movimentada pelos festivais, na formação de capital humano qualificado e na vitalidade das ruas da cidade. Houve um equilíbrio entre o passado e o presente de Bolonha que respeitou essa singularidade.

Por outro lado, em algumas cidades contemporâneas é possível observar uma certa estandardização nas soluções e planos urbanos, indo além da inspiração em referências de sucesso pelo mundo e investindo no uso de receitas prontas que não consideram a singularidade das cidades, tornando-as cada vez mais similares e menos interessantes aos olhos de seus moradores. A perda da distinção é proporcional à perda da identidade.

A criatividade urbana pode ser fonte de soluções customizadas para cada cidade enquanto fortalece a identidade e o senso de pertencimento dos cidadãos. Os recursos culturais da comunidade são o coração dessa capacidade, considerando que potencial criativo de uma cidade tem origem em sua história, tradição, cultura e forma; nos recursos que compõem o conjunto denominado identidade urbana[2]. As ações que dela decorrem são, em última instância, uma forma importante de enfatizar a singularidade de uma cidade.

Com isso vem a necessidade de criar condições e incentivos para que os cidadãos participem, colaborem e interajam na criação de soluções e oportunidade para a sua cidade. São eles o reflexo dessa identidade urbana e os portadores de grande parte dos recursos, como as tradições e os valores da comunidade. Para uma cidade criativa a atuação em rede entre diferentes atores do espaço urbano, a cocriação e a participação cidadã são aspectos chave.

Leia mais sobre cidades criativas em nossa VIA Revista.

Ouça nosso bate-papo sobre o tema no podcast Urban Studies.

Notas

[1] COHENDET, Patrick,,en,Patrick_VIA,,fr; GRANDADAM, David; SIMON, Laurent. Rethinking urban creativity: Lessons from Barcelona and Montreal. City, culture and society, v. 2, n. 3, p. 151-158, 2011.

[2] LANDRY, Charles. Origens e futuros da cidade criativa. São Paulo: SESI-SP, 2013.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com