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Como serão as escolas do futuro?

Atualmente, o grande debate ao redor da educação aborda as tendências e mudanças necessárias no modelo de ensino-aprendizagem das escolas. O rápido avanço das tecnologias transformaram o espaço cívico e o mundo do trabalho, estabelecendo uma nova realidade, da qual os modelos educacionais tradicionais se encontram desconexos.

Os modelos tradicionais de aprendizagem foram concebidos entre a primeira e segunda Revolução Industrial e ainda são aplicados em muitos países. Geralmente, baseia-se na instrução direta e na memorização de conteúdo. O avanço das inovações tecnológicas introduz a terceira e quarta Revolução industrial [1], conduzindo novas formas de produtividade, baseadas na automação da produção e na criação de valor intangível.

Essas tendências do mundo demandam outros tipos de habilidades necessárias para enfrentar os atuais e próximos desafios globais, sugerindo uma adequação dos sistemas educacionais, que cumprem o papel de preparar os cidadãos para os cenários e empregos do futuro. Busca-se, portanto, um modelo educacional mais coerente com a realidade da quarta Revolução Industrial, a chamada “Educação 4.0” [1].

A fim de analisar os mais recentes modelos inovadores de ensino-aprendizagem, o World Economic Forum promoveu uma campanha crowdsourcing em 2019 para identificar programas educacionais e sistemas escolares que estão a caminho da Educação 4.0. Os projetos coletados foram avaliados com base em oito diferentes indicadores de habilidades e aprendizagens, considerados essenciais na formação de crianças e jovens. O resultado do estudo foi publicado no início de 2020 [1], e listou 16 exemplos inspiradores, que servem como guias para a construção das “Escolas do Futuro”. Com base no estudo, selecionamos alguns exemplos.

 

Afinal, como podem ser as Escolas do Futuro?

 

1) Green School, Indonesia

A Green School foi inaugurada em 2008, em Bali, e atualmente também se encontra na Nova Zelândia, África do Sul e Tulum. A arquitetura singular das “escolas verdes” traduz o ensino voltado à sustentabilidade: as estruturas de bambu integradas ao ambiente externo convidam os alunos a se conectar diretamente com a natureza, enquanto que as salas de aula abertas, concebem um espaço instigante à criatividade, curiosidade, empatia e o pensamento crítico. A escola ainda conta com o uso de sistemas de energia renováveis, consumindo apenas 10% de energia se comparada com as escolas tradicionais.

 

Green School, em Bali. Fonte: CicloVivo. Disponível em: https://ciclovivo.com.br/arq-urb/arquitetura/green-school-bali-prepara-futuros-lideres-ambientais.

 

Os alunos e toda a comunidade são convidados a refletir sobre um modo de vida mais sustentável. A partir de atividades realizadas nos jardins e na cozinha da escola, por exemplo, as crianças ganham consciência sobre a origem de seus alimentos. Com base em uma metodologia interdisciplinar, a escola também inclui a cidadania digital, a tecnologia e o empreendedorismo. O ambiente conta com um hub de inovação e um hub de projetos, onde os estudantes prototipam e apresentam os seus projetos desenvolvidos em aula.

Todo o aprendizado deve estar diretamente conectado à uma aplicação no mundo real. Como parte das aulas de matemática, por exemplo, os alunos do ensino médio construíram um cabo funcional para uma ponte de bambu no rio Ayung [1]. O projeto foi inteiramente conduzido pelos estudantes, desde o design, até o orçamento e os seus processos de construção. Outro exemplo de projeto seria o BioBus, um ônibus escolar movido a óleo de cozinha.

Como forma de estender as suas práticas, a escola apoia as iniciativas sustentáveis em outras instituições de ensino da cidade e realiza atividades externas sobre práticas sustentáveis, além de promover o intercâmbio de profissionais da educação com diferentes metodologias ao redor do tema do meio ambiente.

 

2) Anji Play, China

Anji Play é uma escola infantil que defende o aprendizado por meio de brincadeiras. Foi implementada pela primeira vez em 2002, na província de Zhejiang, na China, e ampliada para outras escolas públicas do país e também em outros locais ao redor do mundo, tornando-se um modelo internacional de educação infantil capaz de ser aplicado em qualquer espaço de aprendizagem.

A escola oferece o mínimo de 90 minutos por dia dedicado apenas a brincadeiras, geralmente conduzidas ao ar livre. Os brinquedos são materiais de baixo ou nenhum custo, que estão naturalmente disponíveis no ambiente ou na sala de aula, como cubos, escadas, baldes, gravetos e folhas, e até brinquedos adquiridos por meio de doações.

Anji Play, na China. Fonte: AnyiPlay. Disponível em: http://www.anjiplay.com/.

 

O brincar deve ser um momento de descoberta e exploração para a criança. Ao ter que escolher e inventar livremente as suas brincadeiras, a criança desenvolve, por exemplo, habilidades de tomada de decisão, resolução de problemas com criatividade e pensamento crítico, além das habilidades sócio emocionais e a empatia, ao envolver outros colegas nas brincadeiras.

No final da atividade, os alunos são convidados a refletir e compartilhar sobre aquilo que aprenderam com suas brincadeiras, podendo representar as suas reflexões de diferentes formas, com representações gráficas, expressões verbais, abstratas ou concretas.

 

3) Programa de Aprendizagem Híbrida, Índia

A tradicional ONG indiana Pratham lançou em 2015 o Programa de Aprendizagem Híbrida, a fim de aprimorar a educação do país. O programa fornece ferramentas e dispositivos digitais às vilas indianas, com um conteúdo de aprendizagem disponível.

Não há professores, apenas voluntários atuando como facilitadores. Os grupos de cinco a seis alunos devem conduzir suas atividades, explorando a sua aprendizagem conforme suas curiosidades. Com base em metodologias ativas e gamification, os alunos desenvolvem projetos relacionados à área da saúde, artes, educação financeira e empreendedorismo e, ao final de cada trabalho, apresentam os resultados à comunidade.

Por meio da tecnologia, o programa promove um ambiente de aprendizado físico para todos os membros da comunidade, além de complementar o ensino escolar e melhorar o empenho das crianças nas disciplinas curriculares.

 

Programa de Aprendizagem Híbrida, da ONG Pratham. Fonte: BBC News. Disponível em: https://www.bbc.com/news/business-37618901.

 

4) The Knowledge Society, Canadá

Fundado em 2016, em Toronto, e replicado em algumas cidades dos Estados Unidos, The Knowledge Society (TKS) é um programa extracurricular que aborda tecnologia e empreendedorismo para alunos de 13 a 18 anos. O TKS procura inserir os jovens nos ambientes de aprendizagem e de trabalho das principais empresas de tecnologia do mundo, apresentado as inovações tecnológicas sofisticadas em busca de soluções aos desafios do mundo.

O programa tem duração total de três anos e conta com uma metodologia que desenvolve habilidades de comunicação e conhecimento técnico dos instrumentos tecnológicos. Além do mais, as empresas parceiras de TKS, como a Microsoft, oferecem programas de estágio ou propõe desafios colaborativos aos estudantes, expondo-os aos reais problemas enfrentados por essas organizações.

Ao final do programa, cada estudante deve construir a sua própria empresa inovadora. De maneira a valorizar o potencial de suas invenções, os alunos são convidados a palestrar em conferências de tecnologia internacionalmente reconhecidas, como Web Summit, SXSW, TEDx, entre outras. Um dos estudantes, por exemplo, co-fundou uma companhia que utiliza recursos de machine learning para aprimorar a produção de vacinas.

 

Por fim, as escolas do futuro variam de acordo com os seus diferentes contextos e principais valores. Contudo, o que todas buscam em comum é o protagonismo do aluno no desenvolvimento de projetos que enfrentam os desafios reais, em ambientes colaborativos e criativos, que fomentem a inovação no processo de aprendizagem.

 

Reference

[1] World Economic Forum. Schools of the Future: Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution. Suíça: World Economic Forum, jan., 2020. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/schools-of-the-future-defining-new-models-of-education-for-the-fourth-industrial-revolution. Acesso em: jul., 2021.

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Aline de Camargo Barros

Graduada em Arquitetura (SENAC - SP) e mestranda em Design (UDESC), investiga projetos inseridos no ambiente urbano, suas diretrizes e possibilidades diante das inovações tecnológicas da realidade contemporânea, buscando um viés centrado nas necessidades e demandas do cidadão e da comunidade.

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