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As dez características do design urbano em lugares bonitos, duradouros e bem-sucedidos

Foco em durabilidade, beleza e adequação aos propósitos

Na primeira semana de outubro foi lançado pelo Ministério da Habitação, Comunidades e Governo Local do Reino Unido o seu Guia nacional de design: orientações práticas para lugares bonitos, duradouros e bem-sucedidos. A publicação faz parte de uma coletânea de diretrizes criada pelo governo com orientações, processos e ferramentas de apoio ao planejamento urbano. Este guia, especificamente, tem como finalidade ilustrar de forma prática como projetar lugares de alta qualidade para a comunidade.

Os lugares afetam a todos – são os espaços onde vivemos, trabalhamos e passamos nosso tempo livre. Lugares bem projetados influenciam a qualidade de nossa experiência na medida em que passamos algum tempo e nos movemos ao redor deles. Nós gostamos deles como ocupantes ou usuários, mas também como transeuntes e visitantes. Eles podem elevar nosso espírito, fazendo-nos sentir em casa, provocando um burburinho de excitação ou criando uma sensação de prazer. Tem se demonstrado que os lugares afetam nossa saúde e bem-estar, nossos sentimentos de segurança, proteção, inclusão e pertencimento e nosso senso de coesão da comunidade

National design guide (2019)

O guia de design ainda defende que um lugar é muito mais complexo que uma simples construção ou um edifício. Um lugar é utilizado para uma variedade de atividades e finalidades, por uma variedade de pessoas e em uma variedade de formas. Pode ser um lugar para viver, trabalhar, fazer compras, se divertir, se exercitar, visitar ou apenas servir de passagem a outro lugar. Seus usuários podem ser pessoas em diferentes estágios da vida, como crianças, young, adultos e idosos, homens ou mulheres, em família ou sozinhos, com habilidades e atitudes diferentes.

A constituição de um lugar abrange edifícios, infraestrutura técnica e social e paisagem natural, os quais sofrem mudanças e são alterados ao longo do tempo. Porém, o lugar em si provavelmente será mais duradouro que as construções e o cenário que o compõem. Por sua complexidade, a criação de um lugar de qualidade depende de escolhas certas, desde seu masterplan, da forma e a escala dos edifícios, dos materiais utilizados nas estruturas físicas até a sua aparência.

O bom design urbano

Seguindo a política nacional de planejamento para a criação de lugares de alta qualidade para a comunidade e, apresentando como princípios fundamentais a clássica tríade vitruviana: adequação aos propósitos, durabilidade e beleza, o guia do Reino Unido apresenta as prioridades do governo para lugares bem projetados na forma de dez características: (1) contexto, (2) identidade, (3) forma construída, (4) movimento, (5) natureza, (6) espaços públicos, (7) usos, (8) casas e edifícios, (9) recursos e (10) vida útil. Abaixo o framework de trabalho apresentado no guia:

As características individuais de um lugar bem projetado trabalham em sinergia para criar seu caráter físico, fortalecer e sustentar o senso de comunidade e enfrentar questões ambientais e climáticas importantes em nossa era, assim como contribuem com outros aspectos transversais do design urbano.

As dez características de lugares com um bom design

1. Contexto: realçar o ambiente

O contexto é caracterizado pelos atributos do local como seu espaço físico, a paisagem natural, os fatores econômicos, os serviços e atividades desenvolvidas, a história, cultura e patrimônio, além de outros recursos disponíveis na área circundante a seus limites, os quais influenciam o senso de pertencimento da comunidade.

O bom desenvolvimento do contexto reflete a utilização dos recursos disponíveis, é proporcional à estrutura física e paisagística preexistente no local e é moldado pela compreensão de todo o contexto, equilibrando aspectos estruturais, sociais e estéticos. Importante considerar, ainda nesse âmbito, a história, identidade e influências do lugar.

2. Identidade: atraente e distintiva

A identidade local é criada a partir da relação entre os edifícios, ruas, paisagem e infraestrutura existente e a experiência das pessoas ao ocupar o lugar e nele desenvolver suas atividades. Quando forte, positiva e distintiva, faz com que todos se identifiquem com ela, criando orgulho e senso de pertencimento em seus residentes e ocupantes e, thereby, também resultando em coesão social.

O design urbano considerando a identidade local deve contribuir para o fortalecimento de suas particularidades e a identificação da comunidade com esse design, sendo influenciado pela valorização e compreensão de seu caráter vernacular, os elementos que o distinguem de outros lugares e a capacidade de atrair visualmente e encantar seus ocupantes e visitantes, agradando os diferentes sentidos dos cidadãos.

3. Forma construída: um padrão coerente de desenvolvimento

É a inter-relação entre os elementos físicos construídos e que formam o ambiente como ruas, edifícios, instalações e espaços abertos. Abrange questões de acessibilidade, transportation, densidade, estilo de vida e consumo dos ocupantes, serviços locais, espaços públicos e fachadas.

Nessa perspectiva, o bom design urbano é aquele que combina tipos, formas e escala de construções, públicas ou privadas, para definir uma forma de desenvolvimento que os cidadãos possam aproveitar com comodidade e qualidade.

4. Movimento: acessível e fácil de se movimentar

O padrão de movimento é baseado na caminhabilidade, possibilidade de ciclismo, acesso aos espaços, transporte púbico e estacionamentos no local com baixo impacto no ambiente, segurança, eficiência e acessibilidade para todos, além de promover a movimentação das pessoas e a interação social.

Para o bom desenvolvimento nesse âmbito, é necessário oportunizar às pessoas a escolha entre diversas formas de fazer seus trajetos e chegar aos destinos definidos, seja utilizando o transporte público, caminhando, de bicicleta ou de carro. A prioridade deve ser o pedestre e depois o ciclista, libertando as pessoas da “necessidade” de uso do carro diariamente para se locomover e incentivando a ocupação das ruas e outros espaços públicos.

5. Natureza: realçada e otimizada

A natureza inclui a paisagem e seus elementos, a fauna e flora, os espaços verdes da cidade, os espaços públicos abertos e recursos naturais como a água, tornando-se um componente essencial da qualidade de vida da população.

Um lugar projetado para ter alta qualidade garante um ambiente natural saudável, apoia a biodiversidade, promove a saúde e bem-estar da população, realiza uma boa gestão dos recursos naturais, estimula a interação entre os cidadãos e a natureza e aborda de forma resiliente as mudanças climáticas.

6. Espaço público: seguro, social e inclusivo

É um espaço aberto para todos, como praças e ruas da cidade. Quando bem projetado, integra-se a uma ampla rede de rotas de movimentação, é bem localizado, possui áreas para diferentes usuários e atividades e são seguros e atraentes para as pessoas. Thus, ajudam a diminuir a criminalidade, a necessidade de medidas de segurança e o medo dos cidadãos, encorajando interações e o uso do que é público.

7. Uso: misto e integrado

Este é a mistura de usos do local para suportar as diversas atividades diárias da população e atender as necessidades de pessoas de diferentes idades e estilos de vida, do trabalho à diversão. Thus, o uso bem projetado é aquele que é neutro em termos de posse, mas socialmente inclusivo; atende cidadãos em diferentes estágios da vida, facilita a vida cotidiana, oferece uma variedade de serviços e instalações locais e torna o lugar um espaço vibrante e atrativo.

8. Casas e edifícios: funcionais, saudáveis e sustentáveis

Casas e edifícios são os espaços, internos e externos, privados e públicos, que apoiam o bem-estar de seus usuários em diferentes aspectos, como saúde, estilo de vida e … Nesse sentido, um bom design é aquele que promove a qualidade de vida dos ocupantes, incluindo conforto, segurança, acessibilidade e adaptabilidade. No contexto atual, é importante também que estes ambientes estimulem um estilo de vida mais sustentável e são apropriados ao contexto em que se inserem.

9. Recursos: eficientes e resilientes

Um lugar bem projetado protege e reduz a demanda de uso dos recursos naturais como água, terra e energia ao mesmo tempo em que maximiza suas contribuições sem comprometer a saúde e o bem-estar da população. São ainda adaptáveis ao longo do tempo e podem utilizar o avanço tecnológico para alcançar maior eficiência, seja no contexto interno do espaços – casas e ambientes privados – ou nos espaços urbanos compartilhados. Um ponto chave dos recursos urbanos hoje é a resiliência, apoiando a adaptação da comunidade aos desafios contemporâneos e trabalhando sobre efeitos e consequências potenciais no futuro da comunidade.

10. Vida útil: feitos para durar

Um bom design faz com que o lugar seja bonito, simples e de qualidade, despertando na população o desejo de cuidar e zelar por sua continuidade. É o senso de pertencimento da comunidade, o sentimento de ser um dos “donos”, que faz com que os edifícios e ambientes sejam preservados e resistam às mudanças ao longo do tempo. Thus, há uma clara definição de responsabilidades entre a sociedade e os órgãos públicos, considerando a gestão e a manutenção do desenvolvimento do lugar, envolvendo desde seus espaços públicos até os resíduos e a mobilidade.

As dez características do guia são diretrizes para boas práticas no desenvolvimento de lugares de alta qualidade para a comunidade, considerando em especial sua durabilidade, beleza e propósito. Nesse documento, o governo do Reino Unido deixa claro que os espaços urbanos são fundamentais para a existência e a qualidade de vida da população, impactando suas atividades diárias, necessidades e desejos. Thus, os princípios para um bom design urbano são importantes referências para a criação de lugares bem-sucedidos.

REFERÊNCIA

Ministry of Housing, Communities and Local Government (MHCLGN). Nacional Design Guide: Planning practice guidance for beautiful, enduring and successful places (2019). Disponível em: <www.gov.uk/mhclg>. Acesso em outubro de 2019.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com