Pátio Interno Da Galleria Sciarra. Foto: Acervo Pessoal.

Espaços icônicos contam a história da cidade: Galleria Sciarra e a “glorificação da mulher” em Roma

Arte e arquitetura como representação da transição histórica de uma cidade

Reestruturada em 1885 a mando do príncipe e mecenas Maffeo Barberini-Colonna di Sciarra, a Galleria Sciarra, ou Palazzo Sciarra Colonna di Carbognano, é uma obra-prima da arquitetura com decoração em mosaico e afrescos na cidade eterna. Geralmente ignorada pelos turistas, é descoberta por indicação de habitantes ou mesmo improvisamente durante os passeios a pé pela cidade. Hoje o palazzo abriga escritórios particulares em seus diferentes andares, mas permanece aberto em horário comercial para que visitantes possam acessar a galeria e pedestres a utilizem como passagem entre duas vias centrais da capital: Via Marco Minghetti e Via dell’Umiltà.

O complexo de edifícios que compõe a galeria existe desde o século XV em meio a algumas das igrejas mais antigas do cristianismo e avizinhando a Fontana di Trevi. Porém, foi somente no final do século XIX que adquiriu as características atuais por meio de reforma realizada pelo príncipe Maffeo. Esse período histórico sofreu forte influência da unificação da Itália ocorrida em 1871, quando Roma tornava-se capital italiana e a cidade assistia um aumento substancial no número de habitantes e diversidade de seus espaços, fazendo com que fosse necessária uma reorganização do território e sua modernização, distanciando-se da tradicional e obsoleta arquitetura papal.

O cenário urbanístico era alterado pelas novas exigências burocráticas de uma capital, como novos escritórios e edifícios oficiais. Além disso, com o crescimento populacional havia demanda cada vez maior por moradia, serviços e espaços de lazer e cultura, tais quais museus, galerias e salões. Na estética sobressaiu-se a francesa Art Nouveau com suas diferentes expressões artísticas usando formas da natureza, objetos exóticos e terras longínquas como inspiração. E, seguindo esse movimento, aspirando superar a tradição histórica e alcançar maior liberdade criativa, despontou o estilo liberty italiano, influenciado pela modernidade e pela arte oriental combinada a elementos neoclássicos, gerando um estilo colorido, eclético e diversificado na arte e na arquitetura.

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O príncipe Maffeo, então proprietário do palazzo, tinha como objetivo reformá-lo para criar um imponente centro comercial da capital. Entretanto, o local tornou-se sua mansão particular e sede editorial das atividades do jornal diário La Tribuna e da revista literária Cronaca Bizantina, ambos empreendimentos de Maffeo. O arquiteto responsável pela obra foi Giulio De Angelis (1885-1888) que, utilizando estrutura de ferro e vidro nos estilos liberty e belle époque, produziu um icônico teto abobadado de vidro e ferro fundido que permite que a luz do sol penetre no pátio e ilumine os detalhes nos afrescos das paredes. Estes últimos foram confiados ao pintor Giuseppe Cellini (1890-1895), que utilizando a técnica encáustica seguiu projeto iconográfico concebido pelo poeta e literato Giulio Salvadori para exaltar a figura da mulher na sociedade da época, uma verdadeira: glorificazione della donna.

No pátio interno da galeria, o ciclo de afrescos Art Nouveau expõe figuras que representam os principais papeis e virtudes femininas do século XIX, considerando aquela que seria a imagem da “mulher moderna”. Na parte superior vê-se um pergaminho acima de cada figura feminina indicando a virtude que ela possui e representa: contida, forte, humilde, prudente, paciente, bondosa, fiel, amável, misericordiosa e justa. Na parte inferior são retratadas cenas cotidianas com figuras femininas cercadas por desenhos florais em três fases: menina, esposa e mãe. As mulheres são representadas em atividades atribuídas às burguesas na época: cuidando do jardim, tocando instrumentos musicais, gerindo as refeições domesticas e familiares, fazendo caridade, cuidando da beleza e entretendo com boas conversas. Além das ações e costumes retratados, é possível notar as roupas utilizadas pelos homens e mulheres da época.

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A exaltação da mulher como um ser virtuoso e angelical foi uma homenagem de Maffeo à sua mãe, Carolina Colonna Sciarra. Entretanto, há sugestões de que os rostos de homens e mulheres nos afrescos foram inspirados em artistas e intelectuais proeminentes da época.

De forma não planejada, a Galeria Sciarra tornou-se uma precisa representação do período de transição histórica em que foi criada, seja por seus elementos estéticos ou pela representação de características socioculturais da época. O aspecto artístico arquitetônico do palazzo possui duas naturezas que, conjuntamente, refletem o estilo liberty romano: as grandes janelas, a estrutura e o teto marcante de vidro de ferro forjado são itens modernos, mas a decoração e os temas escolhidos são clássicos e tradicionais.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com