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O ambiente das cidades criativas: da arte à participação

Arte e cidadania ajudam cidades criativas a se adaptarem ao seu tempo preservando a própria identidade

Cidades criativas são cidades que equilibram tradição e inovação. Conforme o precursor desse conceito, Charles Landry (1990; 2013), são cidades em que há uma boa mistura do velho com o novo e do calmo com o vivificante. Isso quer dizer que estas cidades se adaptam ao seu tempo, se transformam, mas preservam aquela essência que as particularizam e que se externaliza por meio dos valores, história, identidade e cultura local (DEPINÉ et al., 2018).

No contexto contemporâneo, o conceito de cidades criativas conquistou espaço com a ascensão da nova economia, direcionada pelo surgimento de novas tecnologias, atividades profissionais criativas, relações de emprego e concorrência global. Essas atividades são, em grande parte, desenvolvidas pela classe criativa e, cidades com uma grande aglomeração de trabalhadores criativos em diferentes setores, apresentam equilíbrio entre o sistema de produção e o ambiente cultural, potencializando o funcionamento qualitativo um do outro. Assim, as cidades têm buscado cada vez mais um desenvolvimento urbano direcionado à nova economia, investimento em recursos culturais e à criação de um lugar dinâmico (SCOTT, 2006).

Grodach (2017) defende que o conceito de Landry trouxe os recursos culturais da comunidade como o coração da cidade criativa, apresentando-os também como a matéria-prima da criatividade que transforma o espaço urbano. Assim, os problemas e necessidades urbanas que demandam soluções criativas e inovadoras devem partir do estímulo à colaboração e imaginação de seus cidadãos, para que estes sejam agentes de mudança do cenário urbano com base na identidade local (DEPINÉ et al., 2018).

Para tal estímulo, Landry (2013) defende a necessidade de um ambiente propício à criatividade urbana, com espaços físicos que favoreçam o encontro e compartilhamento entre as pessoas, ao mesmo tempo em que possibilitam experiências vibrantes para inspirar sua imaginação e aumentar o bem-estar, como: gastronomia, arte, cultura, contato com a natureza, entretenimento e outros. Por isso os espaços públicos e a vitalidade das ruas são privilegiados nesse conceito urbano, incentivando a aproximação das pessoas. Para além da estrutura física, são necessárias oportunidades para as pessoas expressarem seus talentos, obterem aprendizagem de alta qualidade e desenvolverem a cidadania ativa (LANDRY, 2013). Este é o ambiente de uma cidade criativa.

Devido às suas particularidades, cada cidade criativa apresenta aspectos diferentes e únicos em seu ambiente. Entretanto, algumas práticas estão comumente presentes nestas cidades, como o fortalecimento do cenário artístico cultural. Ulmer (2017) defende as ruas como um espaço para explorar as tensões entre o público e o privado por meio da arte, fazendo com que artistas urbanos utilizem paredes, portas, janelas, calçadas, postes, becos, calhas e até mesmo as lixeiras para intervenções que estimulem discussões ou reflexões sobre racismo, gentrificação e justiça, sejam estes artistas contra ou a favor das políticas de desenvolvimento de cidades criativas.

Espaços esquecidos ou abandonados no processo de crescimento desordenado das cidades, como antigos centros urbanos, bairros que possuíam mais moradores e hoje se encontram em ruínas e ambientes agora desvalorizados pela classe imobiliária, se tornam refúgios de artistas. A crise também afeta de forma diferente os estabelecimentos comerciais nesses espaços e seus donos são obrigados a criar ou compreender novas formas de mudar o ambiente em que estão inseridos, encontrar saídas para continuar “respirando”. Então a arte pode contribuir. Para os artistas, por outro lado, são criadas novas oportunidades de relação com o mercado, formas de parceria e geração de renda, agora mais baseadas na criação de soluções criativas e no compartilhamento de ideias. Porém, a arte urbana é só uma das mais variadas formas de manifestação artística e criativa. Cafés, bares, teatros, paredes vivas. Em diferentes cidades a arquitetura e sua cultura dialogam ou dão início ao papo e à manifestação artística. Lisboa, por exemplo, possui muitas empenas de edifícios, prédios em que a parede lateral não tem janela. Assim, a cidade foi tomada por diferentes manifestações artísticas nesses espaços. Isso muda as pessoas nos aspectos culturais, geográficos e econômicos. Já em Goiânia, há vários paredões pelo centro da cidade, uma base de arquitetura art deco, mas pouco acesso para pintar essas grandes empenas. Então lá um ponto de referência em arte urbana é o Beco da Codorna, um espaço aberto, meio público e que é mantido graças à resistência cultural do pessoal da Upoint Graffiti. As cidades se diferem do ponto de vista artístico e criativo de acordo com suas particularidades”
Renato e Douglas – Bicicleta Sem Freio

Em análise da arte urbana em Sydney, McAuliffe (2012) concluiu que a disseminação de políticas e discursos em defesa do conceito de cidades criativas – com valorização de arte e cultura – tem provocado uma mudança na percepção das pessoas sobre o grafite e ressignificado essa prática criativa. O autor ainda afirma que grafiteiros e outros artistas urbanos aproveitam estas oportunidades para se engajar e negociar as geografias morais da cidade criativa.

Seguindo nessa mesma direção, Bader e Scharenberg (2010) exploram o papel do cenário artístico na transformação de Berlim. Para os pesquisadores, após a queda do Muro de Berlim a cena musical prosperou na cidade, especialmente com música techno e eletrônica nos anos 90, chegando também ao hip–hop mais recentemente. A prosperidade do cenário musical resultou na atração de grandes empresas de mídia e música à cidade, movimentando sua economia. Também houve a atração da classe criativa e o desenvolvimento de distritos criativos, tornando a cidade uma marca ligada à subcultura e criatividade.

A expressão criativa e cultural da arte em uma comunidade, seja ela na forma de música, dança, teatro ou artesanato, além de representar a sua essência, preservar e transmitir sua identidade, também é essencial para o bem-estar e qualidade de vida de seus cidadãos (JACKSON, 2008). Um dos resultados possíveis é o aumento do senso de pertencimento dos cidadãos ao local e, consequentemente, seu engajamento como atores efetivos da mudança.

A criatividade urbana pode ser a principal estratégia não apenas para tornar uma cidade criativa, mas, também, para renovar e possibilitar uma trajetória alternativa à uma cidade já criativa. Lazzeretti e Oliva (2018) exploram o case de Florença para mostrar como essa passou de “cidade da arte” para “cidade da moda” por meio dos recursos culturais e criativos da cidade. Florença tem uma história ligada ao patrimônio artístico e cultural que remonta ao Renascimento e se reflete no atual perfil turístico cultural da cidade com museus, obras de arte, arquitetura e moda. Em 1951, período pós-guerra, o primeiro desfile de moda italiana foi realizado na cidade com roupas criadas por estilistas como Emilio Pucci, entre outros, lançando pela primeira vez a moda italiana a novos patamares e conquistando destaque global. O novo setor econômico foi bem integrado à identidade e cultura de Florença, provocando o surgimento de novos negócios, eventos, comércio e atração de turistas que continua a crescer até o período atual.

Com isso, é possível compreender que novos projetos, ações e aspectos que impactem o urbano, quando integrados à identidade da cidade, tendem a se manter e prosperar, ao mesmo tempo em que reforçar as características intrínsecas do lugar. Os recursos culturais são fonte destas inovações e, também, requisitos para verificar a adequação ou não das mudanças surgidas no espaço urbano.

O embrião de uma cidade criativa é a sua cultura local combinada ao novo. A cultura e seus recursos contribuem principalmente para o desenvolvimento e reforço de uma identidade local, seja de uma rua, um bairro ou mesmo uma cidade. Essa identidade se apresenta nos aspectos materiais e imateriais do espaço urbano, tal qual o ambiente construído ou suas características intangíveis. Porém, tanto a cultura quanto a identidade local dependem da participação da população para sua preservação e continuidade e, assim, a arte urbana se destaca como uma das formas mais criativas. Seus efeitos no espaço público são distintos, mas um dos mais fascinantes é o aumento do senso de pertencimento das pessoas. É inerente ao ser humano o querer ser visto, ser notado e sentir-se pertencente a uma localidade que se caracteriza pela arte. Isso tem um enorme poder sobre como as pessoas se sentem no local e também pode despertar um novo olhar sobre ele”
Lucas Noal de Farias – Art in Loco

Sepe (2013) infere que o foco na cultura e na história tem se tornado um determinante no processo de regeneração urbana nas últimas décadas. Essa é uma resposta não apenas à crescente competitividade entre as cidades, mas à necessidade de sustentabilidade cultural, integrando lugares, pessoas, economias e tradições. Um dos principais fatores impulsionadores é a participação, passando por estratégias e políticas públicas.

“Políticas tradicionais de regeneração urbana, baseadas principalmente no combate à exclusão social e em construção de estruturas físicas, estão mudando. As cidades não são apenas edifícios e estruturas materiais, mas também pessoas, redes e elementos intangíveis, como memória, história, relações sociais, experiências emocionais e identidades culturais. De fato, a cidade é um organismo; cada elemento está intrinsecamente entrelaçado e o planejamento deve ser baseado em como as pessoas sentem a cidade do ponto de vista emocional e psicológico. Seu princípio orientador deve ser a criação de lugares e não o desenvolvimento urbano” (SEPE, 2013, p. 597).

A regeneração urbana na perspectiva de uma cidade criativa é provocada pelas interações entre os cidadãos, os quais criam novas ideias, produtos, serviços e, também, pelo meio criativo em clusters e distritos capazes de fortalecer a cultura da cidade (SEPE, 2013). Cabe destacar que cidades dotadas de uma forte história e cultura associadas possuem vantagem no desenvolvimento urbano criativo (SCOTT, 2006). Sepe (2013) ainda alerta para a importância de não apenas atrair a classe criativa de outros espaços urbanos, mas de nutrir a criatividade dentro da cidade, também desenvolvendo a sua própria classe criativa.

Em um período marcado pelo aumento da complexidade da vida urbana, a criatividade se apresenta como principal recurso na criação de soluções para os problemas urbanos e de projetos e políticas alternativas, por isso inovadoras, que possibilitem cidades melhores no amanhã. Porém, para que isso se concretize, é essencial criar uma dinâmica colaborativa e participativa que tenha como ponto de partida e de referência a definição da identidade local, respeitando-a e fortalecendo-a, assim tornando a cultura da cidade uma plataforma de desenvolvimento para todos.

*Versão editada do artigo originalmente publicado na sexta edição da VIA Revista.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com