Empreendedorismo e startups: conceitos, características e diferenças
Empreendedorismo e startup são termos cada vez mais presentes quando se fala em inovação, desenvolvimento econômico, tecnologia e criação de novos negócios. Embora estejam relacionados, representam conceitos distintos. Da mesma forma, empreender não significa necessariamente criar uma startup, e nem toda nova empresa pode ser considerada uma startup.
Compreender esses conceitos e suas relações é importante para entender como novas oportunidades são identificadas, soluções são desenvolvidas e novos negócios são criados, especialmente em contextos marcados pela inovação e pela incerteza.
O que é empreendedorismo?
O empreendedorismo é um campo de estudo amplo e multidisciplinar e, ao longo do tempo, diferentes perspectivas foram utilizadas para explicar o fenômeno.
Uma das contribuições clássicas é a de Joseph Schumpeter, que relaciona o empreendedor à realização de novas combinações capazes de promover mudanças na economia. Essas novas combinações podem envolver, por exemplo, novos produtos, novos métodos de produção, novos mercados ou novas formas de organização. Nessa perspectiva, inovação e empreendedorismo estão fortemente relacionados (Schumpeter, 1934).
Posteriormente, outras abordagens ampliaram a compreensão do fenômeno. Shane e Venkataraman (2000), por exemplo, propõem compreender o campo do empreendedorismo a partir da existência, descoberta e exploração de oportunidades. Assim, o empreendedorismo envolve compreender como, por quem e com quais efeitos oportunidades para criação de novos bens e serviços são descobertas, avaliadas e exploradas.
Dessa forma, empreendedorismo não deve ser entendido apenas como o ato de abrir uma empresa. Ele envolve a identificação ou criação de oportunidades, mobilização de recursos e desenvolvimento de ações capazes de gerar valor.
Quem é o empreendedor?
Se o empreendedorismo corresponde ao fenômeno ou processo, o empreendedor é um dos principais agentes desse processo.
Na perspectiva schumpeteriana, o empreendedor está relacionado à introdução de novas combinações e à promoção de mudanças. Já nas abordagens centradas nas oportunidades, sua atuação está relacionada à identificação, avaliação e exploração dessas oportunidades.
Por isso, ser empreendedor não significa necessariamente ser proprietário de uma empresa.
A atividade empreendedora pode ocorrer na criação de novos negócios, mas também dentro de organizações existentes, universidades, instituições públicas e organizações sociais.
É possível, portanto, encontrar diferentes manifestações do empreendedorismo, como:
- empreendedorismo de novos negócios;
- empreendedorismo corporativo ou intraempreendedorismo;
- empreendedorismo social;
- empreendedorismo acadêmico;
- empreendedorismo científico;
- empreendedorismo tecnológico.
Apesar das diferenças entre essas manifestações, todas estão relacionadas à capacidade de transformar oportunidades, conhecimentos, problemas ou necessidades em iniciativas capazes de gerar valor.
E o que é uma startup?
O conceito de startup está diretamente relacionado ao empreendedorismo, mas possui características próprias.
Steve Blank (2013) define a startup como uma organização temporária criada para buscar um modelo de negócio repetível e escalável. A distinção proposta pelo autor é especialmente importante: enquanto organizações estabelecidas executam modelos de negócio já conhecidos, startups ainda estão procurando e validando seu modelo de negócio.
Eric Ries (2011), por sua vez, destaca a incerteza como uma característica central das startups. Para o autor, uma startup é uma instituição humana criada para desenvolver novos produtos ou serviços sob condições de extrema incerteza.
As duas perspectivas ajudam a compreender elementos importantes das startups: inovação, experimentação, incerteza, validação do modelo de negócio e busca por crescimento e escalabilidade.
No Brasil, o conceito também possui uma definição legal. A Lei Complementar nº 182/2021, conhecida como Marco Legal das Startups e do Empreendedorismo Inovador, considera startups as organizações empresariais ou societárias, nascentes ou em operação recente, cuja atuação seja caracterizada pela inovação aplicada ao modelo de negócios ou aos produtos ou serviços oferecidos.
Para fins do tratamento previsto pela legislação, também são estabelecidos critérios relacionados ao tempo de inscrição no CNPJ, receita bruta e características de inovação.
Toda empresa nova é uma startup?
Não.
Embora uma startup seja geralmente uma organização nascente ou recente, apenas a idade da empresa não é suficiente para caracterizá-la.
Um novo restaurante, uma loja, um escritório ou uma empresa prestadora de serviços pode representar um novo empreendimento sem necessariamente constituir uma startup.
Uma das diferenças fundamentais está na relação com o modelo de negócio e com a incerteza.
Uma empresa tradicional pode iniciar suas atividades utilizando um modelo de negócio conhecido e já amplamente utilizado em seu mercado. A startup, por outro lado, geralmente trabalha com hipóteses que ainda precisam ser testadas e busca encontrar um modelo de negócio que possa ser repetido e escalado.
| Aspecto | Negócio tradicional | Startup |
| Modelo de negócio | Geralmente conhecido ou previamente estabelecido | Em busca, validação ou evolução |
| Inovação | Pode ou não estar presente | Elemento central |
| Incerteza | Relativamente menor | Elevada |
| Escalabilidade | Não necessariamente necessária | Geralmente relevante |
| Crescimento | Pode ocorrer de maneira gradual | Busca possibilidade de crescimento acelerado e escalável |
| Experimentação | Pode ocorrer | É parte importante do desenvolvimento do negócio |
Assim, startup não é simplesmente sinônimo de empresa pequena ou empresa recém-criada.
Do problema à startup
Startups não começam necessariamente pela constituição de uma empresa. Antes disso, existe um processo de descoberta, experimentação e aprendizagem.
De forma simplificada, esse caminho pode ser representado como:

O ponto de partida pode estar na identificação de um problema, necessidade ou oportunidade. A partir disso, uma ideia pode ser transformada em uma proposta de solução.
Entretanto, ter uma ideia ou desenvolver uma tecnologia ainda não significa possuir uma startup.
É necessário compreender quem possui aquele problema, verificar se a solução proposta gera valor, testar hipóteses, identificar clientes ou usuários e desenvolver um modelo de negócio capaz de sustentar a solução.
Referências
BLANK, Steve. Why the lean start-up changes everything. Harvard Business Review, v. 91, n. 5, p. 63–72, 2013.
HAUSBERG, J. Piet; KORRECK, Sabrina. Business incubators and accelerators: a co-citation analysis-based, systematic literature review. The Journal of Technology Transfer, v. 45, p. 151–176, 2020.
RIES, Eric. The Lean Startup: How Today’s Entrepreneurs Use Continuous Innovation to Create Radically Successful Businesses. New York: Crown Business, 2011.
SCHUMPETER, Joseph A. The Theory of Economic Development: An Inquiry into Profits, Capital, Credit, Interest, and the Business Cycle. Cambridge: Harvard University Press, 1934.
SHANE, Scott; VENKATARAMAN, S. The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, v. 25, n. 1, p. 217–226, 2000.
SPIGEL, Ben. The relational organization of entrepreneurial ecosystems. Entrepreneurship Theory and Practice, v. 41, n. 1, p. 49–72, 2017.
BRASIL. Lei Complementar nº 182, de 1º de junho de 2021. Institui o marco legal das startups e do empreendedorismo inovador. Brasília, DF, 2021.
Juliana de Souza Corrêa
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