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Com tecnologia e inovação “museus se transformarão mais nos próximos 30 anos que nos últimos 200”

Tecnologia, inovação e digitalização em destaque na RO.ME – Museum Exhibition 2019

Como um dos principais destinos culturais do mundo e terceiro país mais visitado por turistas, a Itália abrange diferentes cidades e regiões que têm na indústria cultural e no turismo as suas principais fonte de renda, tais como Roma e Veneza. A cultura é um negócio e uma fonte de ideias e criatividade para novos empreendimentos e possibilidades. Esta possui um papel gigante na economia italiana, gerando empregos e produtos, mas o patrimônio cultural impulsiona não apenas a economia, como também a cidadania. Os bens culturais possuem valor histórico e identitário para os cidadãos.

O patrimônio cultural possui um significado superior na promoção da coesão social, bem-estar e cooperação entre as pessoas. A cultura é um capital realmente amplo, feito de patrimônio artístico, paisagem, tradição, know-how e inovação: uma riqueza e beleza mundial que atravessa territórios.

Organização – RO.ME Museum Exhibition

Em 2018 foi realizada, na capital, a primeira edição da feira que se tornou a mais importante do setor cultural na Itália. O evento se apresenta como um hub e plataforma internacional para compartilhar ideias, fazer networking e apresentar oportunidades de negócios para museus, espaços e destinos culturais por meio da feira de exposições, simpósio e experiências disponíveis para o público. Em 2019, ao longo de três dias a segunda edição edição contou com mais de 150 speakers, 900m2 de área para exposições e experiências e a presença de 500 diretores dos principais equipamentos culturais do mundo todo.

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Nesta edição o foco foi direcionado aos desafios contemporâneos dos equipamentos e territórios culturais e à sua preparação para o futuro, envolvendo importantes recursos da era do conhecimento como: tecnologia, inovação e mídias digitais. Nesse ponto, é possível dizer que os desafios debatidos foram englobados em dois tópicos principais: (a) acesso e disseminação e (b) preservação e segurança. De um lado, discute-se como tornar os equipamentos e destinos culturais mais inclusivos, acessíveis à toda população e, também, difundi-los ainda mais; de outro, discute-se como proteger os bens culturais de atos criminosos ou mesmo da ação do tempo e da natureza, vide a atual situação de Veneza. Nestes, a tecnologia passa a ter espaço cada vez maior e a inovação se torna uma esperança.

Cidades, bens culturais e tecnologia

Um dos projetos de maior destaque apresentados na feira de exposições, denominado Smart@POMPEI, em Pompei, é considerado um projeto piloto no setor de inovação tecnológica para o patrimônio cultural das cidades. Apresentando-se como o primeiro Smart Archaelogical Park do mundo, tem como objetivo utilizar a tecnologia de forma integrada para uma gestão inteligente, sustentável e inclusiva do parque com recursos como: vigilância por vídeo, controle de acesso, monitoramento sísmico e hidrogeológico, verificação da qualidade do ar e imagem com drones, gerando alarmes no caso de comportamento anômalo ou situações de emergência.

Com o avanço da realidade virtual e outras tecnologias combinadas, foi apresentado também o case da província de Genova, a qual tem direcionado aplicações à área de seu porto antigo e ao museu. É possível visitar a reconstrução de ambientes antigos, e agora inexistentes, do museu do Palazzo Rosso por meio da realidade virtual com uma vista de 360°. E, com a tecnologia 5G, foram criadas soluções para gerenciamento inteligente de espaços públicos na região, como o controle remoto de sistemas de iluminação no antigo porto e o monitoramento da qualidade do ar.

Experiência, tecnologia e inovação 

Em relação aos museus, houve uma transformação em seu papel na sociedade. Em seu surgimento, na Grécia antiga, esse espaço era destinado à contemplação e estudo, tornando-se séculos mais tarde uma espécie de guardião da cultura. Hoje, com as diversas possibilidades de acesso à cultura e educação, o museu deixou de ser o principal espaço para essa finalidade e novas oportunidades começaram a despontar. Os especialistas presentes no evento destacaram uma nova palavra de ordem: a experiência. Mudar a percepção de museu como local de passeio, para uma local onde há uma experiência cultural completa.

Muitos equipamentos culturais ao redor do mundo estão buscando formas de utilizar a tecnologia para aprimorar ou aprofundar a experiência do usuário. Pode ser a possibilidade de aprender história por meio de uma narrativa visual digital, usar a tecnologia para conhecer em uma obra seus detalhes e variações de cores imperceptíveis a olho nu, “participar” ou “imergir” na cena de um quadro por meio da realidade virtual ou mesmo utilizar o 3D para reconstituir algo que foi perdido na história, como uma obra de arte ou um território esquecido. Veja abaixo alguns exemplos apresentados durante o evento:

O pesquisador norte americano e expert na abertura de museus, Don Bacigalup, também conselheiro do Smithsonian, contou sobre o trabalho que vem desenvolvendo nos últimos 5 anos junto ao diretor de cinema George Lucas (Star Wars e Indiana Jones) para a criação de um museu inovador que será inaugurado no início de 2020 em LA, o Lucas Museum of Narrative Art. O museu contará a história da humanidade por meio de uma narrativa, ou visual storytelling, que utilizará diferentes expressões da arte: cinema, arquitetura, grafite, escultura, entre outras.

No estande da Canon e IC VideoPro foram apresentadas diferentes soluções de projeção em vídeo para criar experiências de imersão em instalações, museus, lugares e destinações culturais. Nesse mesmo tópico, um dos principais atrativos aos visitantes interessados em tecnologia durante o evento foi o espaço de experiência da Magister com uma exposição multimídia que resgata a trajetória e conjunto de obras de grandes artistas como: Giotto, Canova, Raffaello e Botticelli.

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Por meio da realidade virtual, diferentes experiências puderam ser vivenciadas pelos visitantes do evento. No estande da Rainbow Academy + MODO, com óculos VR o usuário passava por experiências virtuais interativas e multissensoriais, nas quais foram utilizadas técnicas de 3D para a recriação de cenários e, também, obras de arte. Em um deles era possível aprender sobre história e, em outro, viver a experiência de fazer um passeio dentro de uma pintura e visualizar todos os seus detalhes e cores.

Por fim, nas discussões e apresentações dos speakers do evento, foi possível conhecer quais são os recursos que os principais museus e outros equipamentos culturais do mundo estão utilizando ou buscando. Tendo em vista que a sociedade e suas exigências sobre os espaços culturais mudaram, os principais gestores veem os dados como uma forma de compreender o público e encontrar formas de tornar os espaços de visitação mais agradáveis, acessíveis e atrativos aos visitantes. Diferentes recursos tecnológicos oferecem possibilidades de interação e educação nunca encontradas antes na história. E, com a realidade virtual e o 3d, é possível resgatar territórios, espaços e obras que se perderam ao longo da história, aumentando o repertório dos museus e o acesso à cultura.

O pesquisador do King’s College London e diretor de tecnologia da National Gallery (Londres), Chris Michaels, defendeu a importância da adoção de tecnologias para tornar o museu um espaço melhor para seus usuários. Não apenas com atos simples como oferecer wifi, ter um “bom site” com informações ou permitir agendamentos online, mas de forma estratégica utilizando dados para compreendê-los e, assim, fazer as transformações necessárias (business intelligence), assim como, utilizar a tecnologia para tornar a experiência mais profunda, educadora e completa.  Segundo ele, com tecnologia e inovação os”museus se transformarão mais nos próximos 30 anos que nos últimos 200″.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com