Florença - Photo By Van Williams On Unsplash

A trajetória de Florença como cidade criativa: de cidade da arte à cidade da moda

Os recursos culturais no centro do desenvolvimento econômico urbano

Cidades criativas são cidades que equilibram tradição e inovação, ou seja, transformam-se e adaptam-se ao seu tempo, mas preservam sua identidade explicitada por meio dos valores, história e cultura local. Estas cidades mantém a essência que as particulariza, combinando elementos contemporâneos aos aspectos mais tradicionais e distintivos do local (DEPINÉ et al, 2018).

As pesquisadoras Luciana Lazzeretti e Stefania Oliva (2018), da Universidade de Florença, realizaram publicação científica com o case de Florença e sua evolução de “cidade da arte” para “cidade da moda”, sob uma perspectiva econômica. Seu trabalho “Rethinking city transformation: Florence from art city to creative fashion city” tem como objetivo analisar a forma como recursos culturais e criativos podem afetar o surgimento de novas trajetórias urbanas em cidades criativas, seja para sua renovação ou declínio. A abordagem utilizada pelas pesquisadoras foi a da dependência da trajetória, popularmente entendida como “influência da história”.

Cidades criativas e o desenvolvimento econômico

Entre suas diversas funções, as cidades são espaços que abrangem a concentração de diversas atividades econômicas, envolvendo talentos, negócios e a criação de produtos e serviços. Dessa forma, no contexto urbano, as transformações econômicas são mudanças de longo prazo, inclusive quando se trata do processo de reestruturação dessa área. Nas últimas décadas, considerando o início do período pós-industrial, a economia criativa emergiu nas cidades, reforçando a cultura como um importante ativo capaz de gerar riqueza, empregos e inovação, ou seja, propiciando o desenvolvimento econômico urbano.

A cultura é então vista não apenas como um elemento ligado à identidade da cidade e ao valor simbólico dos espaços que a compõem, mas também como uma oportunidade ao empreendedorismo, inovação e atração da classe criativa. Nesse sentido, as autoras do trabalho adotam uma perspectiva evolucionária da transformação econômica das cidades, onde novas trajetórias somente se originam da estrutura econômica, local e dos conhecimentos preexistentes. Assim, um novo caminho surge por meio das relações entre atores locais e se estabiliza por meio de externalidades dessa rede, podendo levar à evolução da área econômica.

O papel dos recursos criativos e culturais na economia urbana

A ampliação dos conceitos de indústria cultural e indústria criativa enriqueceu o cenário econômico das cidades, criando uma nova geografia das organizações econômicas que destaca produtos artesanais, moda, inovação e outros serviços e produtos ligados à geração de novas ideias e à capacidade criativa de seus atores. Percebeu-se que estas “indústrias”, mas ligadas à cultura e criatividade, encorajam a presença de diversidade entre os talentos e desencadeiam a renovação local. O agrupamento destas atividades, reunindo talentos altamente qualificados, cria um espaço caracterizado pela criação e transferência de conhecimento entre os atores.

Evidências na literatura científica também apontam que o desenvolvimento econômico urbano dirigido pela cultura ajuda as economias locais a lidarem com desafios contemporâneos como o processo de desindustrialização em massa e a polarização social, além de ter potencial para promover a inclusão social e tornar os territórios mais resilientes.

Entretanto, o surgimento de um paradigma das “cidades criativas”, explicitado pela competição entre as cidades, gerou uma nova crise urbana caracterizada pelo crescimento da desigualdade e dos preços da habitação dentro dos principais centros urbanos, como evidenciado por Richard Florida. Essa competição pode também ocasionar a perda de significado e autenticidade, na medida em que permite ou estimula a alteração dos recursos idiossincráticos dos lugares. Assim, o conceito de cidade criativa deve ser implantado ou continuado de forma estratégica nas cidades, evitando seu prejuízo em tais aspectos.

Florença: uma antiga cidade criativa

A cidade de Florença é historicamente considerada uma cidade da arte, desenvolvida como uma das principais representantes do Renascimento e caracterizada pelo patrimônio artístico e cultural que remonta a esse período. Tal patrimônio é fonte de valorização econômica da cidade, por meio de atividades como o turismo. Florença é uma das cidades mais visitadas da Itália, assim como seus espaços ligados à arte e cultura. A Galeria Uffizi, por exemplo, é o terceiro equipamento cultural mais visitado no país.

Entretanto, para manter sua capacidade competitiva na era pós-industrial, a cidade transformou sua estrutura econômica promovendo a indústria criativa. Diferentes áreas da indústria criativa estão presentes no território, como arquitetura e engenharia, música, cinema, artes cênicas e editoração, de forma que os empregos criativos representam mais de 70% dos empregos em Florença. Porém, sua base de conhecimento e competência criativa existente, relacionada à tradição e aos seus bens culturais, fomentou o surgimento de um cluster de moda, tornando esta última a grande protagonista de sua indústria criativa.

A cidade tornou-se o berço da moda italiana e renomados estilistas fizeram história em Florença, como Gucci, Ferragamo e Pucci. A mesma ainda concentra artesãos altamente qualificado, um importante distrito industrial ligado à produção de artigos de couro se desenvolveu, é crescente o número de museus e instituições dedicadas à moda, feiras e eventos de renome internacional são realizados periodicamente e seu centro está repleto de lojas especializadas no varejo de luxo. Quanto aos talentos, uma densa rede de educação de excelência voltada ao setor se desenvolveu, incluindo nomes como a Polimoda e o Istituto Marangoni, contribuindo para a transformação de Florença.

Florença: de cidade criativa da arte à cidade criativa da moda

O cluster de moda de Florença tem como marco inicial o período pós-guerra, com o primeiro desfile de moda no país em um projeto capitaneado por Giovanni Battista Giorgini, em fevereiro de 1951. O desfile ocorreu no salão de sua casa, apresentando as criações de estilistas e boutiques italianas como Emilio Pucci à jornalistas e compradores internacionais. Com o sucesso da iniciativa, partir daí a moda italiana atingiu novos patamares no mercado e o “Made in Italy” passou a se tornar uma marca.

As autoras Lazzeretti e Oliva (2018) defendem que uma cidade da moda, caso de Florença, é mais do que uma cidade onde a indústria da moda está localizada. Uma cidade da moda é uma cidade criativa que apresenta alta concentração de negócios ligados à moda, mas também que concentra um alto número de trabalhadores qualificados e um alto número de instituições culturais públicas e privadas na área. Esses elementos constituem uma identidade simbólica que impacta a economia urbana.

Leia também: Classe criativa e o desenvolvimento econômico urbano

A indústria da moda florentina pode ser dividida em duas áreas de concentração: centro e periferia. Na primeira estão as atividades ligadas ao comércio – principalmente de luxo -, as tradicionais oficinas de artesanato denominadas “botteghe” e as escolas de moda mais importantes da cidade. Estas se beneficiam da atmosfera artística e cultural do centro histórico de Florença, abrangendo museus e outros ambientes ligados a seu patrimônio. Importante destacar que essa área também engloba espaço historicamente importante para o comércio de seda e tecidos preciosos. Já na periferia estão as principais empresas ligadas à indústria da moda e outlets.

As fases da trajetória de transformação econômica de Florença

O cenário apresentado por Lazzeretti e Oliva (2018) evidencia que a atual estrutura econômica da cidade é protagonizada por grandes empresas de moda e pelo distrito especializado em couro. Esta estrutura é apoiada pelos talentos altamente qualificados provenientes das escolas de moda, com conhecimento relacionado às suas atividades tradicionais e, pela rede institucional da cidade. Assim, o apoio pode ser configurado pelo conjunto das seguintes dimensões: estrutura econômica, capital humano, sistema educacional, infraestrutura institucional, ambiente voltado ao varejo, mídia de promoção e dimensão global.

A transformação de Florença tem sua trajetória apresentada em quatro fases distintas: pré-formação, criação da trajetória, desenvolvimento da trajetória e consolidação da trajetória como um processo dinâmico. A pré-formação evidencia a alta densidade de recursos culturais presentes desde o surgimento de Florença como uma cidade da arte, abrangendo bens tangíveis e intangíveis. A criação da trajetória surge como um resultado das boas condições existentes na pré-formação, com a herança artística e cultural da cidade que a tornou atraente não apenas para a classe criativa, mas também para compradores estrangeiros. Na fase de desenvolvimento da trajetória surgem diferentes instituições para apoiar a indústria criativa, além da exploração do conhecimento presente na cidade e investimento na formação de capital humano para atender às suas demandas. Por fim, na fase da trajetória como um processo dinâmico, há a transformação efetiva da economia local, quando os recursos e habilidades existentes na dão suporte ao surgimento de uma “nova cidade”.

Especificidades que facilitaram o processo de transformação:

As autoras da pesquisa apontam as especificidades que facilitaram a transformação de Florença de cidade da arte em cidade da moda:

  • presença do patrimônio cultural;
  • tradição no artesanato;
  • forte capacidade empreendedora;
  • capital humano e conhecimento; e
  • sinergia entre instituições públicas e privadas.

Para elas, a identidade da cidade é o conjunto em sinergia de cidadãos, atividades econômicas e instituições públicas e privadas que se fundem ao patrimônio histórico que personaliza a cidade de Florença. O artesanato é uma atividade tradicionalmente desenvolvida na cidade, mas foi a capacidade inovadora e intuitiva de atores locais que estabeleceu um ponto de partida para a transformação (desfile de 1951) e que depois foi investida por grandes empresários e mantida pela rede de apoio atuando em sinergia.

A transformação econômica de Florença: o equilíbrio entre tradição e inovação

Uma das principais características de uma cidade criativa é a sua capacidade de combinar harmonicamente o novo ao antigo ou tradicional. Nesse sentido, Lazzeretti e Oliva (2018) evidenciaram a forma como Florença utilizou sua identidade e o contexto local para introduzir novos recursos de forma coerente à sua trajetória anterior, fortalecendo sua imagem de cidade criativa.

A indústria da moda na cidade foi moldada com base nas características locais e recursos herdados por ela ao longo do tempo. Entretanto, a antiga estrutura econômica não permaneceu igual, mas foi renovada, mostrando que embora não haja uma receita única, é possível não apenas desenvolver uma cidade criativa, mas também reestruturá-la.

Leia também: O ambiente das cidades criativas: da arte à participação

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEPINÉ, Á.; MEDEIROS, D.; BONETTI, G.; VANZIN, T. Cidades criativas e o componente cultural no desenvolvimento urbano. In: DEPINÉ, Á.; TEIXEIRA, C. S. (Orgs.). Habitats de inovação: conceito e prática. São Paulo: Perse, 2018. cap. 3, p. 67 a 86. Acesse aqui.

LAZZERETTI, L.; OLIVA, S. Rethinking city transformation: Florence from art city to creative fashion city. European Planning Studies, v. 26, n. 9, p. 1856-1873, 2018. Acesse aqui.

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Ágatha Depiné

Advogada urbanista e apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar o conhecimento cívico e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Cidadã engajada em movimentos sociais para transformação das cidades e de seus espaços públicos com base nos desejos e necessidades de seus cidadãos. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação cívica e urbana. Doutoranda e Mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. agathadepine@gmail.com