Crédito: Thomas McConnell

Empreendedorismo e responsabilização em laboratórios de vida urbana

Pensando criticamente sobre experiências urbanas

Este post pretende apresentar considerações levantadas sobre os laboratórios de vida urbana, os Urban Living Labs e a sua aplicação nas cidades. Para tanto, foi baseado no estudo realizado por Anthony Levenda, da Universidade do Estado do Arizona, publicado em 2019.

Segundo o autor, a proliferação de tecnologias inteligentes e big data está sendo cada vez mais usada para resolver problemas socioambientais urbanos. Assim, os sistemas de eletricidade, por exemplo,  estão sendo reconfigurados com tecnologias inteligentes para ajudar a integrar a geração renovável e aumentar a eficiência energética. Mas, muitas dessas intervenções são experimentais, exigindo testes no mundo real antes da difusão mais ampla.

Esse tipo de teste geralmente ocorre em “laboratórios de vida urbana”, integrando os residentes urbanos como atores-chave na experimentação de objetos para transições mais amplas de sustentabilidade.

No artigo, Levenda (2019) investiga um laboratório de vida urbana focado na pesquisa e demonstração de redes inteligentes em um bairro residencial em Austin, Texas. A partir de um levantamento  sobre estudos de governamentalidade, do filósofo Michel Foucault, o autor apresenta considerações críticas a cerca da experimentação urbana.

Laboratório vivo de Austin para tecnologias inteligentes

O projeto Rua Pecan (PSP) no bairro de Mueller, em Austin nos Estados Unidos, foi desenvolvido em 2009 e serviu para testar várias intervenções sócio-técnicas incluindo veículos elétricos e solares, tecnologias domésticas inteligentes e infra-estrutura de rede inteligente avançada em contextos do mundo real.

O impulso empreendedor para o localização do projeto foi estimulada pelo legado da cidade como uma tecnópole. Portanto, foi criada uma estratégia de desenvolvimento econômico com o objetivo de atrair empresas de alta tecnologia e trabalhadores de classe criativa por meio da Universidade do Texas e outros recursos públicos.

Neste contexto, o projeto envolveu os residentes ambientalmente interessados ​​e tecnologicamente experientes do bairro de Mueller que tiveram vários incentivos para contribuir com os testes. Dentre eles, adotar veículos elétricos, painéis solares, sistemas de gestão de energia e outras tecnologias inteligentes. Por este motivo, o projeto Pecan Street obteve participação considerável e pôde realizar pesquisas e testes de campo tendo acesso a dados sobre o uso de energia pelos consumidores.

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Estudo de caso e resultados

Todavia, os dados utilizados para a construção do estudo do Projeto Rua Pecan no artigo foram coletados entre março de 2014 e maio de 2016. Ainda, as fontes principais de dados incluíram 26 entrevistas semiestruturadas e aprofundadas com funcionários do governo, pesquisadores e representantes de grupos sem fins lucrativos. Além de  empresas envolvidas no projeto, reuniões públicas e conferências, em Austin. As fontes de dados foram codificadas para produzir temas, que depois foram interpretados com conceitos teóricos baseados em governamentalidade  e literatura sobre governança urbana (LEVENDA, 2019).

O estudo mostrou domínios muito estreitos de participação através do consumo, e mostrou ainda como os projetos parecem se aplicar apenas a um determinado segmento da população. Aqueles “adotantes precoces” e aqueles com riqueza suficiente para viver em lugares como o bairro de Mueller.

Segundo Levenda (2019)  o foco da experimentação transfere imperativos urbanos para responsabilidades individuais pelas mudanças socioambientais. O gerenciamento das emissões de carbono, por meio da eficiência energética, energia renovável e conservação é promovido como uma forma de autogestão, na qual as famílias reconfiguram as atividades cotidianas e/ou adotam novas tecnologias. Ao mesmo tempo, as intervenções sociotécnicas são moldadas por empresas de tecnologia, pesquisadores e formuladores de políticas que marcam uma característica central do empreendedorismo urbano contemporâneo.

Contudo, isso distorce o potencial da coprodução ativa e depende da delegação de responsabilidade pela ação em um conjunto restrito de tecnologias e usuários inteligentes. Desta forma, os resultados sugerem que o foco da experimentação urbana transfere responsabilidades individuais pelas mudanças socioambientais.

Laboratórios de vida urbana são oportunidades significativas para obter apoio público na questão da sustentabilidade urbana. No entanto, essas abordagens parecem ter uma abordagem limitada devido à as maneiras pelas quais os cidadãos podem participar desses projetos. Para Levenda (2019) o estudo de caso de de Austin demonstra que as abordagens tecnoeconômicas buscam regular a conduta dos indivíduos através de incentivos, mas essa abordagem limita outras alternativas democráticas lideradas pelos cidadãos.

Referência

LEVENDA. M. Anthony. Thinking critically about smart city experimentation: entrepreneurialism and responsibilization in urban living labs, Local Environment, 24:7, 565-579, 2019. DOI: 10.1080/13549839.2019.1598957.

Crédito foto de capa: Thomas McConnell.

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Mariana Mezzaroba

Jornalista pela Universidade de Passo Fundo. Mestre e doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. Atua em pesquisas relacionadas ao ecossistema de inovação, à inovação no setor público e como consultora no programa Living Lab Florianópolis. mariana.bomdia@gmail.com

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