Capital Criativo

Desenvolvimento econômico regional: tecnologia, talento e tolerância (os 3 Ts)

O capital criativo e o desenvolvimento econômico regional

Para compreender o impacto da criatividade nos resultados econômicos de uma região, Richard Florida, criador da teoria da classe criativa, utiliza um conjunto denominado “3 Ts do desenvolvimento econômico”: tecnologia, talento e tolerância. Para o autor, a teoria do capital criativo é, atualmente, a melhor justificativa para o crescimento de uma região, apresentando uma base mais sólida que a do capital social, a do capital humano, entre outras relacionadas a esse tópico.

Nessa visão, os 3 Ts, quando trabalhados juntos, podem impulsionar a inovação e o crescimento econômico de uma região. A sinergia entre ambos é essencial para o desenvolvimento econômico, haja vista que determinadas regiões onde apenas um ou dois dos 3 Ts são encontrados, não conseguem alcançar o crescimento almejado. Florida (2011, p. 250) defende que:

Os 3 Ts explicam porque cidades como Baltimore, St. Louis e Pittsburgh são incapazes de crescer apesar de seus amplos recursos tecnológicos e suas universidades de primeira linha: elas não são suficientemente tolerantes e abertas para atrair e reter os trabalhadores criativos mais talentosos. A interdependência dos 3 Ts também explica por que cidades como Miami e Nova Orleans não se saem muito bem apesar de serem mecas do estilo de vida: elas não têm a base tecnológica necessária. Os lugares mais bem-sucedidos – São Francisco, Boston, Washington, Austin e Seattle, por exemplo – reúnem os 3 Ts. Essas regiões são verdadeiramente criativas.

Assim, compreende-se que os três são parâmetros interligados que, individualmente, têm um efeito positivo, embora limitado. Já em coexistência, apresentam um efeito sinérgico significativo no desenvolvimento econômico regional. O talento é representado pela concentração de pessoas com alta instrução (curso superior ou acima), a tecnologia pelo resultado econômico no setor e, a tolerância, pela abertura à imigração e presença do capital criativo ou boêmio.

Veja também: Classe criativa: como e por que atraí-la à cidade?

Para Florida (2014), a tecnologia é o que permite ao capitalismo se revolucionar constantemente, assegurando a sua vitalidade; talento é o segundo fator do desenvolvimento, pois os trabalhadores do conhecimento não apenas aperfeiçoam os meios de produção existentes, como também criam novos produtos e mercados; a tolerância é importante porque talento é móvel, ele flui, e os lugares em que ele flui são aqueles mais acolhedores e diversos.

A diversidade é um aspecto chave na teoria do capital criativo, pois apresenta-se como uma característica local que atrai indivíduos com ideias, interesses e habilidades distintas, permitindo interações entre eles que estimulam a inovação e aceleram o fluxo de conhecimento na região. Este aspecto é também ligado às baixas barreiras de entrada de pessoas e novos negócios ao local. Florida destaca a importância dos imigrantes, ou “novos forasteiros”, para o crescimento recente das cidades e regiões do Estados Unidos, destacando o Vale do Silício. Lugares com alta pontuação em índices de diversidade são também lugares com altos índices de concentração de pessoas criativas e onde o setor de alta tecnologia cria raízes.

Algumas constatações do autor em relação a teoria do capital criativo, obtidas em parceria com Gary Gates no decorrer de uma década de estudos estatísticos, são:

  • Crescimento populacional: é impulsionado pela diversidade e criatividade, não tanto pelo capital humano ou setor tecnológico;
  • Crescimento do emprego: é impulsionado pela presença de capital criativo;
  • Regiões de grande porte: tanto o crescimento populacional quanto o crescimento do emprego são impulsionados pela soma entre criatividade e diversidade, de forma que estas áreas devem investir na abertura à diversidade e no desenvolvimento da cultura e arte local;
  • Regiões de pequeno e médio porte: a imigração é o maior impulso ao crescimento, de forma que essas áreas devem investir no fortalecimento de sua característica cosmopolita.

Por fim, cabe destacar que o estilo de vida é o aspecto mais valorizado pelos criativos na escolha por um local onde viver. Tradicionalmente, os fatores econômicos são considerados os mais importantes para a atratividade de uma região em comparação às demais, como: diferenças salariais, custo variável de moradia e de vida, além da maior presença de empregos. Entretanto, para pessoas qualificadas, criativas e com alta escolaridade, fatores não-pecuniários apresentam importância cada vez maior como: melhores condições climáticas, níveis mais baixos de criminalidade, opções de lazer, poluição mais baixa e melhor tráfego. As conveniências culturais são as mais interessantes para a classe criativa, com itens como: cultura vibrante das ruas, lazer ao livre e cena artística local.

As cidades devem se preparar para a atração e retenção da classe criativa, tendo em vista que, o capital criativo é essencial para o crescimento regional e, também, forte influenciador da presença de alta tecnologia no local. Para a prosperidade econômica, as regiões devem oferecer os 3 Ts do desenvolvimento.

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*Texto adaptado de: DEPINÉ, Á. Fatores de atração e retenção da classe criativa: o potencial de Florianópolis como cidade humana inteligente. Dissertação (Programa de Pós- Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento) – Centro Tecnológico, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, p. 119. 2016.

Para acessá-lo clique aqui (p. 64-67).

Referência

FLORIDA, Richard. A ascensão da classe criativa. Porto Alegre: L&PM, 2011.

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Ágatha Depiné

Advogada e pesquisadora apaixonada pelo conhecimento. Dedica-se a pesquisar o conhecimento cívico e sua relação com a participação cidadã, a inovação urbana e o direito urbanístico. Cidadã engajada em movimentos sociais para transformação urbana. Doutoranda e Mestra em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. agathadepine@gmail.com

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