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Inovação cívica: a tecnologia como aliada da cidadania

Inovação cívica transformando as cidades por meio da tecnologia 

O modelo de conhecimento tradicionalmente defendido para gerar inovação é o criado por Etzkowitz e Leydesdorff (2000) e denominado “tríplice hélice” por basear-se nas interações entre: academia, mercado e governo. Entretanto, na sociedade do conhecimento, onde este último flui para todas as esferas sociais, pesquisadores como Carayannis e Campbell (2011) indicam sua evolução para um modelo baseado na “quádrupla hélice”, considerando a inclusão da sociedade civil entre elas. Essa concepção é baseada na compreensão de que a produção do conhecimento e sua aplicação na inovação requerem a integração do público, o qual faz parte do sistema de inovação e, também, cria, compartilha e provoca a criação do conhecimento necessário para a inovação.

Nesse sentido, uma das formas recentes de aplicação desse modelo de “quádrupla hélice” é a inovação cívica. A ideia de civismo está ligada à cidadania, refletindo-se no cidadão enquanto indivíduo preparado para compreender e atuar consciente e responsavelmente dentro da sociedade. A utilização da tecnologia nesse contexto permite a ampliação da participação cidadã em processos decisórios e no desenvolvimento de políticas públicas mais efetivas. Assim, a inovação cívica é compreendida atualmente como uma forma de inovação para as cidades que se baseia na participação cidadã e novas formas de governança urbana aliadas à tecnologia.

Leia mais sobre a importância da participação para a inovação em nosso post: Participação cidadã e a inovação em cidades

Almirall, Lee e Majchrzak (2014) desenvolveram estudo de caso sobre inovação cívica em seis cidades: Barcelona, Amsterdã, Helsinki, Boston, Filadélfia e Nova York. Os autores identificaram múltiplas abordagens para inovação cívica aberta nas estudadas. Em comum, destacaram que as seis disponibilizam dados abertos aos cidadãos, em tipos e níveis de profundidades diferentes, mas com utilização, dentre outras atividades, em hackathons e desafios ou concursos de desenvolvimento tecnológico. Além destas ações, ambas utilizam crowdsourcing para obter feedback dos cidadãos sobre ideias, serviços e desafios criados pelo poder público, assim como, abrem espaço para que os cidadãos possam postar ideias e propostas.

As seis analisadas também se envolveram com as organizações Code for America (caso de Boston, Filadélfia e Nova York) e  Code for Europe (caso de Barcelona, Amsterdã e Helsinki), as quais forneceram temporariamente programadores para trabalhar no desenvolvimento de aplicações que diminuíssem a lacuna entre estas cidades e seus cidadãos. Ainda quanto às abordagens, Barcelona se destacou entre as seis por ser a primeira a criar um urban living lab, espaço público onde empresas de tecnologia podem avaliar o piloto de seus produtos ou serviços a partir da interação com os cidadãos em seu dia-a-dia. As americanas Boston e Filadélfia também inovaram inspirando-se no modelo das aceleradoras de negócios para criar aceleradoras cívicas, as quais têm por finalidade aproximar as cidades de startups, empresas e organizações sem fins lucrativos interessadas em parcerias para fornecer melhores serviços, tecnologias ou formas de interação entre os cidadãos e o poder público.

 

Saiba mais sobre a participação cidadã por meio da tecnologia em nosso capítulo: Ágoras Digitais

Em iniciativas voltadas à inovação cívica os cidadãos são convidados a participar, contribuindo com seu conhecimento e criatividade e, o poder público, enquanto orquestrador do processo, dispõe dos recursos necessários para que ela ocorra, como informações, dados, ferramentas, espaços físicos e investimento financeiro, quando for o caso. Além destes dois, outros atores podem ter importante participação, como: empresas, consultores, investidores e intermediários. Entretanto, a inovação cívica tem em seu centro o compartilhamento de responsabilidades e objetivos entre dois atores principais: cidadão e poder público.

Referências Bibliográficas

 ALMIRALL, Esteve; LEE, Melissa; MAJCHRZAK, Ann. Open innovation requires integrated competition-community ecosystems: Lessons learned from civic open innovation. Business Horizons, v. 57, n. 3, p. 391-400, 2014.

CARAYANNIS, Elias; CAMPBELL, David. Open innovation diplomacy and a 21st century fractal research, education and innovation (FREIE) ecosystem: building on the quadruple and quintuple helix innovation concepts and the “mode 3” knowledge production system. Journal of the Knowledge Economy, v. 2, n. 3, p. 327, 2011.

ETZKOWITZ, Henry; LEYDESDORFF, Loet. The dynamics of innovation: from National Systems and “Mode 2” to a Triple Helix of university–industry–government relations. Research policy, v. 29, n. 2, p. 109-123, 2000.

*Esse artigo foi originalmente publicado na quinta edição da Revista VIA. Clique no link para acessar o conteúdo completo.

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Advogada urbanista e doutoranda apaixonada pela cidadania. Dedica-se a pesquisar a competência cívica e sua relação com a participação cidadã, o direito urbanístico e a política urbana. Acredita que a beleza, a tradição e a inovação podem melhorar nossas cidades e nossas vidas. Atualmente em estágio doutoral na La Sapienza di Roma. Atua em projetos da VIA como especialista em inovação urbana desde 2016. agathadepine@gmail.com