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Periphèria e MyNeighbourhood: iniciativas para transformação das cidades com base no protagonismo cidadão

Com a ascensão do modelo “cidade inteligente” compreendeu-se que cidades melhor equipadas com sistemas de tecnologia da informação e comunicação não são necessariamente mais inteligentes ou mesmo melhores para seus cidadãos. Isso evidenciou o desafio que é equilibrar tal infraestrutura tecnológica com fatores mais soft no ecossistema urbano, como: participação pública, engajamento social e interação das pessoas em ambientes físicos e virtuais, possibilitando um diálogo aberto e contínuo entre administração pública, mercado, academia e sociedade.

São as ações e iniciativas conjuntas entre a quádrupla hélice da inovação – sociedade, academia, mercado e governo – que podem fazer emergir e concretizar a visão de futuro dos cidadãos. Por isso, é necessário incluí-los na transformação urbana como cocriadores das soluções para os problemas atuais e, também, planejadores do futuro social almejado, pois são eles o principal “motor de mudança”. Nessa perspectiva, alicerçando-se na necessidade de concentrar-se nas pessoas e em seu bem-estar, surgiu a nova geração das cidades inteligentes, as cidades humanas inteligentes.

Cidades humanas inteligentes são ecossistemas urbanos onde infraestrutura física e digital coexistem em uma relação sistêmica com seus cidadãos. Com essa visão, dois projetos foram desenvolvidos envolvendo propostas de urban living labs para a experimentação de novas formas de governança, participação pública e atividades de co-design: o Periphèria e o MyNeighbourhood. Ambos receberam investimentos da União Europeia e resultaram em parcerias inovadoras, desafios públicos e interação entre instituições e cidadãos sem precedente (CONCILIO, DESERTI, RIZZO, 2014).

O projeto Periphèria foi uma iniciativa com duração entre 2011 e 2013 e promovida por vinte organizações de cinco países: Suécia, Alemanha, Grécia, Itália e Portugal, onde em algumas cidades foram criadas infraestruturas (urban living labs e plataformas virtuais), definidos desafios com a comunidade (após abertura de chamada pública para propostas e sugestões) e desenvolvidas soluções em serviços por meio do co-design entre os atores relevantes no contexto (cidadãos, instituições e empresas) (PERIPHÈRIA, 2014).

O projeto MyNeighbourhood foi concebido em 2013 para utilizar tecnologia de informação e comunicação, as TICs, e outras ferramentas de mídia social para ajudar a recriar o senso de pertencimento em bairros. O objetivo é conectar os moradores com seus vizinhos, empresas e comércio local, além de associações existentes e órgãos públicos. Por meio do estímulo à interação e comunicação entre esses atores, desenvolve-se maior senso de pertencimento à comunidade e surgem informações e soluções para melhoria da qualidade de vida. Participam atualmente do projeto vinte e sete bairros das seguintes nações: Dinamarca, Portugal, Finlândia, Itália e Reino Unido (MYNEIGHBOURHOOD, 2016).

O aumento das iniciativas relacionadas à urban living labs e cidades humanas inteligentes apresentam uma ponte entre a microescala de decisão e a escala total da coletividade urbana, por meio de ambientes colaborativos e criativos que permitem a interação dialógica com e entre os cidadãos em um quadro cultural situado e específico (CONCILIO, DESERTI, RIZZO, 2014).

Como resultados dos projetos, as comunidades se tornaram mais participativas, coesas, criativas e geraram serviços inovadores para si mesmas, para as empresas e o governo. Tais soluções criadas, além de resolver problemas ou melhorar condições das comunidades, ainda geraram empregabilidade, conhecimento, oportunidades e fortaleceram as relações entre os atores envolvidos, gerando benefícios para todo o ecossistema. Esses são os principais frutos do protagonismo cidadão: desenvolvimento individual que repercute no desenvolvimento de todo o seu entorno.

 

PARA SABER MAIS

REVISTA VIA

BLOG: Cidades Inteligentes e o futuro da vida urbana

BLOG: Para quem são as cidades inteligentes

VÍDEO: Cidades Inteligentes 

EBOOK: Smart Cities: alinhamento conceitual

ARTIGO: DEPINÉ, Ágatha; ELEUTHERIOU, Vanessa; MACEDO, Marcelo. Human Dimension and the Future of Smart Cities. In: V Congresso Internacional Cidades Criativas, 2017, Porto. ACTAS ICONO14. Madrid: ASOCIACIÓN DE COMUNICACIÓN Y NUEVAS TECNOLOGÍAS, 2017. v. 2. p. 947-956.

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Ágatha Depiné

Advogada e pesquisadora apaixonada pelo conhecimento. Dedica-se a pesquisar o conhecimento cívico e sua relação com a participação cidadã, a inovação urbana e o direito urbanístico. Cidadã engajada em movimentos sociais para transformação urbana. Doutoranda e Mestra em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. agathadepine@gmail.com

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