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Para quem são as cidades inteligentes?

Na busca por soluções dinâmicas e que aliassem o avanço tecnológico ao desenvolvimento urbano, cidades do mundo todo adotaram sistemas e recursos tecnológicos de forma generalizada na gestão de sua infraestrutura. Essas cidades passaram a ser denominadas “cidades inteligentes” e alcançaram destaque por suas características inovadoras e eficiência. Esse modelo urbano conquistou entusiastas na academia, mercado, comunidade e gestão pública. Os gestores públicos, em especial, viram nesse modelo a oportunidade não apenas de tornar sua gestão mais integrada e eficiente, mas também de colocar sua cidade num patamar mais competitivo em relação às demais, seja na busca por investimentos, capital humano ou qualidade de vida.

Empresas de tecnologia que vislumbraram as oportunidades incutidas nesse conceito passaram a desenvolver pesquisas e produtos voltados ao desenvolvimento urbano inovador e foi, de certa forma, o movimento criado entre a oferta (empresas de tecnologia) e a demanda (governo) que passou a conduzir o planejamento e implantação das cidades inteligentes. Apesar desse movimento estar na direção certa, buscando equilibrar a fusão da tecnologia com a infraestrutura urbana, ainda deixa a desejar na dimensão humana.  A transformação de uma cidade que busca ser inteligente deve se alicerçar na síntese dos interesses, características e necessidades de seus cidadãos.

O termo smart city, em português cidade inteligente, surgiu no final da década de 90 em um movimento civil que defendia novas políticas de planejamento urbano, muito antes de ser absorvido pelo mercado (HARRISON, DONNELLY, 2011). É a interação entre os diversos recursos urbanos, as forças top-down e bottom-up e as oportunidades de transformação que realmente possibilitam o complexo fenômeno que é a transformação urbana. De forma que, a conexão entre as partes interessadas e os recursos tecnológicos é indispensável nesse processo (RIZZO et al, 2015).

Cidades inteligentes são aquelas que melhor realizam a visão de futuro nas dimensões: economia, pessoas, governança, mobilidade, meio ambiente e qualidade de vida (GIFFINGER, 2007), as quais são igualmente essenciais, mas possuem em comum a centralidade do cidadão no ecossistema urbano. Dentre essas dimensões, três são alicerçadas principalmente nos cidadãos e se traduzem como: participação pública (governança), capital humano (pessoas inteligentes) e estilo de vida (qualidade de vida). Ou seja, as pessoas – e não a tecnologia – são os verdadeiros atores da inteligência urbana (OLIVEIRA, CAMPOLARGO, 2015).

Uma cidade pode se tornar mais inteligente independentemente da tecnologia ou então com tecnologia frugal, sem uma infraestrutura sofisticada ou complexa, pois as soluções que emergem da comunidade podem ser simples e criativas a ponto de dispensarem investimentos significativos nesses recursos. A transformação urbana em que os cidadãos são o principal “motor de mudança” garante que os verdadeiros desafios da cidade possam ser abordados (OLIVEIRA, CAMPOLARGO, 2015).

A tecnologia pode ser também uma facilitadora para conexão, capacitação e engajamento dos cidadãos, estimulando e apoiando atividades colaborativas que conduzam a inovação social e promovam interação entre comunidade e instituições públicas ou privadas para resolução de problemas da comunidade ou planejamento do futuro. Nesse sentido, há um potencial ainda pouco explorado de novos serviços e possibilidades de diálogo entre administração pública, mercado, academia e cidadãos. Um desafio para as novas cidades inteligentes é equilibrar a infraestrutura tecnológica do conceito tradicional com fatores mais soft como: engajamento social, empoderamento cidadão e interação das pessoas em ambientes físicos e virtuais.

Ações desenvolvidas em diversas partes do mundo demonstram que a busca pela implantação do conceito de cidades inteligentes tem gerado melhor qualidade de vida e eficiência em diversos aspectos das áreas urbanas, mas o protagonismo dado à tecnologia deixou em segundo plano a participação daqueles que são os verdadeiros protagonistas urbanos, os cidadãos. Dessa forma, é cada vez mais essencial fazer emergir por meio de ações e iniciativas conjuntas as necessidades e interesses dos cidadãos, para que a construção do futuro seja dirigida pela visão ideal da própria comunidade. Mais do que pensar no futuro, os cidadãos podem criar ou participar ativamente das soluções para questões críticas que se apresentam na atualidade.

 

PARA SABER MAIS

VIA Revista

Cidades Inteligentes e o Futuro da Vida Urbana

Cidades Inteligentes no Programa Consciência 

Ebook Cidades Inteligentes

ARTIGO: DEPINÉ, Ágatha; ELEUTHERIOU, Vanessa; MACEDO, Marcelo. Human Dimension and the Future of Smart Cities. In: V Congresso Internacional Cidades Criativas, 2017, Porto. ACTAS ICONO14. Madrid: ASOCIACIÓN DE COMUNICACIÓN Y NUEVAS TECNOLOGÍAS, 2017. v. 2. p. 947-956.

 

*Por Ágatha Depiné – Mestra e Doutoranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC. agathadepine@gmail.com

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Ágatha Depiné

Advogada dissidente e apaixonada pelo conhecimento. Dedica-se a pesquisar o direito à cidade, o protagonismo cidadão, o conhecimento político e sua relação com o desenvolvimento social e urbano inteligente. Cidadã engajada em movimentos sociais para transformação urbana. Doutoranda e Mestra em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. agathadepine@gmail.com